Nós e os outros por Zilpa Magalhães

Lygia Pape. Manto Tupinambá, 1999. Montagem fotográfica, RJ

 

Lygia Pape. Manto Tupinambá, 1996-1999. Montagem fotográfica.

 

Há séculos nossa história vem sendo contada pelo ponto de vista do colonizador, deixando para trás as práticas de invasão, violência e extermínio contra aqueles que aqui viviam. Enquanto tradições milenares tentam manter-se em pé, “encurraladas em seu próprio habitat” como diz Vidal em “Arte Indígena e Sobrevivência Cultural”, parece haver olhares cobiçosos querendo, como antes, apropriar-se desses “não-lugares”.  Isso é o que indica a Proposta de Emenda à Constituição (PEC 215), ao tentar modificar as regras de demarcação de reservas indígenas, quilombolas e zonas de conservação ambiental, promovendo o agravamento dos conflitos fundiários.

“Não é bem assim, temos feito muito pelos grupos indígenas…”, argumentariam alguns, principalmente os do meio político. Parece comum eles explicitarem essas ideias através das políticas para a educação escolar entre os grupos indígenas, fundamentando-se para isso nos princípios de multiculturalismo e interculturalidade. Ideias essas que têm levado “democraticamente” alguns indígenas a ingressar no ensino superior em busca de um “conhecimento legítimo”, argumentam. Então, pela lógica, a partir daí os índios podem lutar por seus direitos, utilizando-se dos mesmos meios da sociedade não indígena.

Parece-nos, assim, que ainda nós – não índios – temos enorme dificuldade para compreender, e respeitar, essas culturas que vivem distantes da nossa “corrente principal”. Como se aquelas culturas tivessem que evoluir para atingir nossos saberes excepcionais: de acumulação de bens materiais, de competição e de individualismo.

Vejamos como o exemplo das práticas culturais dos tupinambás, que viviam ao longo da costa brasileira e que foram dizimados pelos europeus, tornou-se um fato, no mínimo, interessante. Eles praticavam a antropofagia, um conceito-chave para nossa arte e cultura, retomado por Oswald de Andrade no período modernista. Os tupinambás devoravam seus inimigos “não por fome, como no canibalismo, mas para engolir e assimilar as capacidades espirituais do outro”, dizia a artista Lygia Pape. O símbolo de poder dessas tribos era um “Manto de Penas” que, dentre outros objetos originais, foram conservados e podem ser vistos atualmente na Dinamarca, na Alemanha e na Bélgica, mas não no Brasil!  Afora a aparente ironia do “devorador cuidar do devorado” (isto é, do europeu que antes devastou essa cultura, hoje “cuidar” desses objetos), parece-nos que essa apropriação também seja simbólica de um poder que ainda se quer hegemônico.

Assim, poderemos nos perguntar: por que no Brasil ainda parecemos agir como colonizados, sem nunca engolir e assimilar o que os povos indígenas, dentre tantos outros excluídos, têm a nos ensinar e a trocar? Quem são os Xavantes, os Kaiapós, os Ianomâmis? O que os diferencia? Onde moram e como vivem?

Acreditamos que a questão que aqui se impõe é saber o quanto nós, “não-índios”, continuamos a ser “os outros” para eles, e vice-versa. Pois, nessa trama de importâncias sempre secundárias, terminamos por permitir e promover ideias de superioridade e, consequentemente, de inferioridade cultural, facilitando a concentração desses poderes dominantes. Afinal, há tantos “outros” tão esquecidos e desdenhados a que simplesmente damos o nome: “índios”!Manto Tupinambá, Museu Nacional de Arte da Dinamarca Lygia Pape. Bola Antropófaga de Plumas

Manto Tupinambá. Museu Nacional de Arte da Dinamarca      |         LygiaPape. Bola Antropófaga de Plumas 

 

 

BRETT, Guy. Uma semente permanentemente aberta. In: Lygia Pape. Espaço Imantado. Catálogo da Exposição homônima. São Paulo: Pinacoteca do Estado, 2012. p.255-267

 

VIDAL, Lux. Arte Indígena e Sobrevivência Cultural. In: Tradição e Ruptura: Síntese de Arte e Cultura Brasileiras. Projeto Editorial da Fundação Bienal de São Paulo:1984 Comind, Banco do Comercio e Industria de São Paulo. P.306. p.23-36

 

Zilpa Magalhães é Mestra em Educação pela Universidade Nove de Julho, Arte/Educadoraformada pelo Centro Universitário de Belas Artes de São Paulo, com licenciatura e habilitação emArtes Visuais. Dirige a Escola de Arte: “ZiArte-Viveka”, desde 1989, desenvolvendo: ateliê livre de desenho e pintura; aulas práticas e teóricas em história da arte brasileira e internacional; “Vivekinha” – arte para criançascursos preparatórios pré-vestibularesTrilha Cultural; assessoria para artistas e profissionais de educação.